Entrevista publicada no Le Figaro Madame em 25 de dezembro de 2010
Entrevista por Dalila Kerchouche —

Mais de 3 milhões de espectadores assistiram a "Homens e Deuses", o filme de Xavier Beauvois. Será que esse sucesso inesperado de 2010 revela uma sede de espiritualidade? Dois especialistas, o filósofo Frédéric Lenoir* e a cartunista e cineasta Joann Sfar**, exploram novos caminhos da fé.

Madame Figaro: "Homens e Deuses" atraiu um público muito amplo neste outono: ateus, agnósticos, crentes de todas as religiões… O que você acha do filme?
Frédéric Lenoir : Estou encantado! Este filme retrata a vida dos monges trapistas de Tibhirine, que viviam em harmonia com a população argelina. Ele nos dá uma imagem positiva do encontro entre cristãos e muçulmanos. Mostra que a coexistência é possível desde que as pessoas se conheçam, desde que a tolerância seja baseada na amizade. Diante das crescentes tensões comunitárias, é um antídoto para o medo do outro.
Joann Sfar: Concordo com você. Estou cansada de ficar constantemente remoendo as diferenças entre judeus, cristãos e muçulmanos. Prefiro falar sobre o que temos em comum. Não é por acaso que filmes hoje em dia se intitulam "Homens e Deuses", "O Profeta" e "O Gato do Rabino". Os cineastas estão tentando ir além da narrativa do choque de civilizações. Acredito também que o público precisa ser tocado por algo além de uma partida de futebol.
Madame Figaro: Enquanto nossas vidas se aceleram, por que um filme tão lento é tão cativante?
Frédéric Lenoir: Precisamente porque nos obriga a desacelerar! Os planos longos se demoram nos rostos. Os movimentos de câmera nos dão tempo para nos colocarmos no lugar dos monges, para olharmos para dentro de nós mesmos. Quando o vi no cinema, ao final da sessão, o público permaneceu na sala por uns bons dez minutos, em silêncio, sem se mexer, como se quisesse prolongar essa profundidade. Foi um momento de comunhão.
Joann Sfar : Muitas vezes nos esquecemos de quanta transcendência a arte também proporciona!
Madame Figaro: Outro sucesso da época foram os cursos de meditação, as peregrinações e os retiros em mosteiros. De onde vem essa sede de espiritualidade?
Joann Sfar: Não importa quantas vezes tentemos provar que Deus não existe, as pessoas continuarão a rezar. Essa necessidade de contemplação está profundamente enraizada em nós. Por exemplo, existe uma palavra extraordinária em espanhol. As figuras pintadas por El Greco, com olhos brancos, quase revirados, são consideradas "ensimismadas" (estão olhando para dentro).
Frédéric Lenoir: Mas cuidado para não reduzir essa sede de espiritualidade à religião! Vai além disso. Hoje, a grande religião é o dinheiro. E os sumos sacerdotes, os publicitários, nos bombardeiam com a ideia de que a felicidade vem do acúmulo de bens ou de uma posição social dominante. Isso é falso. Você pode ser rico e famoso e ainda assim ser infeliz ou um canalha. Mas ter sucesso na vida é ter um relacionamento correto consigo mesmo e com os outros, ser útil à sociedade. A busca espiritual é, antes de tudo, uma busca por sentido. E também um meio de reconciliação consigo mesmo.
Madame Figaro: Vocês dois são crentes?
Joann Sfar : Eu tenho um problema: sou uma não-crente praticante. Adoro rezar — já até fiz genuflexões em um templo japonês! Quando criança, quando eu chegava atrasado para a refeição de Shabat, minha avó dizia: "O que importa não é o sermão do rabino, é comer algo quente". Gosto de rituais quando eles nos conectam uns aos outros. Mas não consigo levá-los a sério. Para mim, tudo continua sendo uma brincadeira.
Frédéric Lenoir: A distinção entre crente e não crente não faz mais muito sentido. Tenho dificuldade em usar a palavra "Deus", esse Deus das religiões que nos deu tantas guerras. Mas tenho fé na vida. Como os estoicos, acredito que existe uma força invisível que governa o mundo e uma bondade que nos transcende. No fim das contas, toda espiritualidade se resume a amar a vida.
Joann Sfar: É irritante, concordamos em tudo! Em "O Gato do Rabino", um velho judeu se recusa a converter o gato ao judaísmo. Ele então explica ao gato quem é Deus por três horas. No final, o gato responde: "É exatamente assim que me sinto em relação à minha dona!"
Madame Figaro: Qual foi a sua educação espiritual?
Joann Sfar: Minha mãe morreu antes de eu completar quatro anos. A partir daí, não acreditei em nada. Recebi uma educação judaica tradicional, estudei o Talmud e misticismo. Embora formado como rabino, meu avô materno me ensinou a dúvida e a rebeldia, porque sua família havia perecido nos campos de concentração. Para mim, Deus era um pouco como o Papai Noel. Ao mesmo tempo, sempre me comovi profundamente com as pessoas rezando, porque vejo nisso um sinal de humildade e desespero. Não tenho nada contra as religiões, mas tudo contra os hipócritas.
Frédéric Lenoir: – Criado em uma família católica, percebi, como você, Joann, muita hipocrisia entre o clero. E toda aquela pompa e circunstância do Vaticano me dava a impressão de um grande Guignol.
Madame Figaro: – No entanto, a maior parte da sua escrita é permeada pela espiritualidade!
Joann Sfar : – Retornei a ela através do desenho. Para mim, é uma verdadeira oração, uma forma de entrar em mim mesmo, uma carta de amor aos outros e ao mundo. Depois dos meus estudos, participei de autópsias durante as aulas de medicina legal. Desenhava ossos e músculos. Ao sair da sala, sentia-me como se fosse apenas um pedaço de carne. Depois, ia desenhar crianças brincando com suas mães em parques públicos. Fiquei comovido e fascinado pelo mistério da alma que nos move.
Frédéric Lenoir – Meu caminho foi mais sinuoso. Aos 15 anos, descobri Sócrates e a filosofia, o que me levou a questionar a alma e, assim, a retornar à espiritualidade. Depois, atraído pelo budismo, comecei a praticar meditação, o que faço há 25 anos. Finalmente, aos 19 anos, li os Evangelhos. E ali, fui profundamente tocado ao descobrir Cristo. Primeiro, porque ele denuncia a hipocrisia religiosa. E segundo, porque ele desenvolve dois valores essenciais: a liberdade e o amor. Hoje, me considero cristão porque me identifico com essa mensagem.
Madame Figaro: Frédéric , em seu livro mais recente, você tenta reconciliar espiritualidade e introspecção. Por quê?
Frédéric Lenoir: Porque a espiritualidade não existe fora da vida interior. Caso contrário, caímos na ideologia. Neste "Pequeno Tratado sobre a Vida Interior", quis unificar a experiência mística, a psicologia profunda e a filosofia, porque todas nos dizem a mesma coisa sobre os seres humanos: suas contradições, seus lados sombrios e as forças do bem enterradas no coração de cada ser humano. Devemos aprender a nos conhecer e a nos amar. Sejam crentes ou ateus, este é o ponto de partida da busca espiritual.
Joann Sfar: Gostei do seu livro porque você lança um olhar amoroso, porém crítico, sobre o pensamento religioso. Que é o que eu tento fazer através do humor.
Madame Figaro: Como você conversa com crianças sobre isso?
Frédéric Lenoir: Tentando transmitir um testemunho. Mantendo a coerência entre nossas palavras e nossas ações. Se dissermos a eles "Deus é amor" ou "Ame o seu próximo", vamos mostrar que somos capazes de perdoar. A partir dos três anos de idade, as crianças fazem perguntas profundamente espirituais: "Quem é Deus?" "O ​​que é a morte?" Devemos dizer o que acreditamos e testemunhar isso por meio de nossas ações, não bombardeá-las com declarações dogmáticas.
Joann Sfar: Para mim, é uma verdadeira luta. A literatura infantil proíbe as crianças de não acreditarem. Existem inúmeros livros sobre Moisés, Maomé, Jesus ou Buda. Mas nenhum deles tem o título "Talvez Deus Não Exista". Hoje, quando uma das minhas filhas pergunta: "Para onde vão os mortos?", eu respondo: "Não sei". Não digo a elas que não há nada depois da morte. Mas não me sinto capaz de afirmar algo para ela do qual não tenho certeza.
Madame Figaro: O Natal ainda tem significado para você?
Frédéric Lenoir: Claro! Mesmo sabendo perfeitamente que Jesus não nasceu em 25 de dezembro. O Natal era uma festa pagã que foi cristianizada no século IV, marcando o alongamento dos dias, o renascimento da luz, a vitória do sol. Hoje, é obviamente ultracomercial. Mas para mim, como para muitos, é antes de tudo uma celebração familiar, onde os laços são fortalecidos. É importante manter os rituais, mesmo os seculares, mesmo que tenham perdido seu significado religioso.
Joann Sfar – Na minha casa, o Natal é muito colorido. Nosso presépio é da Martinica, com um pequeno Jesus Negro. Na família da minha esposa, acadêmicos e cristãos de origem lituana, preparamos treze sobremesas, sopa de sementes de papoula e colocamos ervas sob as toalhas de mesa. E quando o Natal cai em um dia de sábado, eu celebro os dois. Quanto mais feriados, mais feliz eu fico.

* Breve biografia de Frédéric Lenoir:
Nascido em uma família de cristãos socialistas – seu pai foi Secretário de Estado para a Ação Social durante o governo de Giscard d'Estaing – este filósofo e escritor explorou a Cabala, o Sufismo, o Taoísmo e o Budismo. Autor de vários best-sellers, atualmente dirige a equipe editorial de "Le Monde des Religions" (O Mundo das Religiões). Acaba de publicar "Petit Traité de vie intérieure" (Pequeno Tratado da Vida Interior) (Plon), um livro profundo e perspicaz.

** Breve biografia de Joann Sfar:
** Este autor de quadrinhos é um conhecedor do Talmud e do misticismo judaico. Ele se inspirou neles para escrever sua história em quadrinhos cult, "O Gato do Rabino" (publicada pela Gallimard BD), uma obra de humor mordaz que vendeu 1 milhão de cópias. Conhecido por seu filme "Gainsbourg (Uma Vida Heroica)", este artista multitalentoso está agora adaptando "O Gato do Rabino" para o cinema (lançado em 1º de junho de 2011).