Publicado no L'Express em 18 de junho de 2006 —
Entrevista por Claire Chartier —
O Priorado de Sião está no centro do enigma de Da Vinci. Você embarcou na busca por essa sociedade secreta, cuja existência ninguém antes de você havia se lembrado de verificar. O que você descobriu?
Correndo o risco de desapontar alguns leitores, não existe nenhum priorado fundado por Godofredo de Bulhão em 1099. O único Priorado de Sião registrado na história é o criado por um homem chamado Pierre Plantard, um desenhista em uma fábrica de fogões em Annemasse, em 25 de junho de 1956! Trata-se de uma associação sem fins lucrativos (regida pela lei de 1901), cujos estatutos foram registrados na subprefeitura de Alta Saboia. O Monte Sião ao qual o nome da sociedade se refere não é a montanha em Jerusalém, mas sim a montanha em Alta Saboia. Este Pierre Plantard — assim como Sophie Plantard de Saint Clair, a heroína de O Código Da Vinci — afirmava ser descendente dos reis merovíngios — novamente, como a Sophie do romance. Filho de um criado, um petainista e um mentiroso compulsivo, Pierre Plantard inicialmente quis ser padre, mas depois se voltou para o esoterismo. No final da década de 1950, quando fundou seu famoso Priorado, descobriu o caso Rennes-le-Château, que lhe permitiria enriquecer sua lenda pessoal.
Uma história verdadeiramente incrível…
Absolutamente! A história apresenta o Padre Béranger Saunière, que — mais uma referência de Dan Brown — inspirou o sobrenome de Jacques Saunière, o curador do Louvre assassinado no início do romance. Em 1885, esse padre chega à pequena paróquia de Rennes-le-Château, na região de Aude, cuja igreja, dedicada a Maria Madalena, está em ruínas. Ele a restaura e, por razões desconhecidas, começa a escavar o cemitério. Em seguida, manda construir uma torre e um asilo para padres idosos. "De onde veio o dinheiro?", perguntam-se os moradores. Espalham-se rumores: o padre teria descoberto pergaminhos escondidos em um pilar de sua igreja, o que o teria levado a se interessar pelo cemitério. Por que não? O que se sabe com certeza é que o Abade Saunière se envolvia no tráfico de missas: ele escrevia para centenas de organizações católicas por toda a Europa, pedindo dinheiro para celebrar missas pelos falecidos. Mas, embora devesse celebrar apenas uma missa por dia, ele recebia quantias que poderiam ter financiado mais de 30 missas diárias! Ele foi condenado pelo bispo por essa atividade fraudulenta.
Apesar disso, a lenda do tesouro do Abade Saunière perdurou!
Sim, porque a governanta dele assumiu o controle. Cerca de trinta anos após o desaparecimento do padre, ela vendeu a propriedade para um empresário, Noël Corbu, que decidiu abrir um restaurante ali, enquanto também realizava uma busca minuciosa na propriedade. Depois de quinze anos, sem um tostão e sem um único tesouro em seu nome, o dono do restaurante pensou que poderia ao menos usar a história para atrair clientes. Um jornalista do jornal La Dépêche du Midi veio visitá-lo e escreveu um artigo intitulado "Abbé Saunière, o padre com bilhões". A lenda nasceu.
Como Pierre Plantard ficou sabendo disso?
Plantard leu o artigo. O mesmo fizeram Gérard de Sède, uma espécie de poeta e escritor trotskista, e o Marquês de Cherisey, um aristocrata excêntrico com paixão pela genealogia monárquica. Nossos três personagens se encontraram e decidiram forjar o mito de Rennes-le-Château em meados da década de 1960. Para dar legitimidade histórica à sua história, eles próprios depositaram documentos na Biblioteca Nacional, supostamente comprovando a existência do Priorado de Sião e o fato de Pierre Plantard ser o último descendente da dinastia merovíngia. No início da década de 1980, três autores anglo-saxões, Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh, aumentaram o mistério ao afirmarem em *O Santo Graal e a Linhagem Sagrada* que o Priorado guardava um segredo: Jesus e Maria Madalena tiveram descendentes… dos quais descendiam os reis merovíngios. O Abade Saunière teria descoberto documentos templários em sua igreja que comprovariam isso! Encontramos esses famosos "arquivos secretos" na Biblioteca Nacional, que Dan Brown menciona em seu prefácio, descrevendo-os como "pergaminhos": nada mais são do que páginas datilografadas comuns! Em 1979, o Marquês de Cherisey chegou a admitir que os havia fabricado, inspirando-se em outras obras
Mas por que inventar toda essa história?
Pierre Plantard realmente acreditava ser o último descendente dos reis merovíngios, o rei perdido com quem o Marquês de Cherisey sonhava há anos! Já Gérard de Sède queria pregar uma peça.
A lista de líderes famosos do Priorado que Dan Brown cita em seu prefácio – Victor Hugo, Isaac Newton, Leonardo da Vinci – é, portanto, totalmente ridícula.
Sim, mas eles não foram escolhidos ao acaso. Todos eles se envolveram com o esoterismo: Victor Hugo realizava sessões espíritas, Isaac Newton praticava alquimia, Leonardo da Vinci se interessava por sociedades secretas. Mas nenhum deles jamais pertenceu ao famoso Priorado… e por um bom motivo! A meu ver, Rennes-le-Château representa o maior mito esotérico de nosso tempo.
O romancista acrescentou um ingrediente picante: Opus Dei. Monges assassinos de cilício, prelados conspiradores, escândalos… O autor não se contém!
Obviamente, há muita ficção envolvida: a obra de Deus nunca foi condenada por um ato criminoso. Mas é verdade que esse grupo católico ultratradicionalista, fundado por José Maria Escrivá de Balaguer em 1928 e que ostenta 80.000 membros leigos, cultiva o segredo, que está muito bem estabelecido no Vaticano, cujos cofres provavelmente ajudou a reabastecer, que é bastante machista – apenas homens governam – e que alguns de seus membros praticam a mortificação corporal.
Leonardo da Vinci era o pintor herege e gênio do esoterismo descrito no livro?
Leonardo da Vinci tomou muitas liberdades com a Igreja e inseriu inúmeros símbolos pagãos em suas pinturas. Mas a maioria dos pintores da Renascença, imersos na Antiguidade, utilizava esses símbolos, que eram familiares ao público. Acadêmicos e artistas da época eram fascinados pelo Hermetismo, pelos textos neoplatônicos e pela Cabala cristã. A questão central é se Leonardo realmente pintou Maria Madalena em vez de São João em sua pintura da Última Ceia. O apóstolo retratado na pintura de fato parece efeminado, embora não tenha seios, ao contrário do que afirma Dan Brown. Mas não há nada de estranho nisso também: a grande maioria das pinturas da Renascença retrata São João com traços quase adolescentes, cabelos longos e sem barba — a tradição afirma que ele tinha 17 anos quando conheceu Jesus. Além disso, como Leonardo da Vinci era homossexual, provavelmente escolheu seu namorado da época como modelo. Dizer que o apóstolo João na Última Ceia não é outro senão Maria Madalena me parece absolutamente fantasioso.
Vamos agora falar sobre Maria Madalena: o que sabemos sobre a personagem?
Os Evangelhos nos falam de várias figuras distintas: Maria Madalena, a primeira discípula a quem Jesus apareceu no dia da Ressurreição; Maria de Betânia, irmã de Lázaro e Marta; e, por fim, uma pecadora arrependida, cujo nome não é mencionado, que ungiu os pés do profeta da Galileia com perfume. Gradualmente, a pecadora arrependida tornou-se uma prostituta no imaginário cristão, e então as três figuras se fundiram em uma só.
Será que alguma dessas três Marias poderia ter sido companheira de Cristo?
Dan Brown se baseia no Evangelho apócrifo de Filipe, escrito em meados do século II. Este Evangelho de fato existe, mas pertence a uma escola de pensamento específica, o Gnosticismo, que se espalhou na época por toda a bacia do Mediterrâneo, especialmente em Alexandria. Os gnósticos acreditavam que a salvação vinha do conhecimento, não da fé, o que levou os Padres da Igreja a considerá-los hereges. Esses crentes "iconoclastas", para quem a alma é boa e o corpo fundamentalmente mau, revalorizavam o feminino. Em sua visão, a complementaridade entre mulher e homem era da mesma natureza que une a humanidade a Deus. O que diz o Evangelho de Filipe? Maria Madalena era a discípula predileta de Jesus, a quem ele "beijou na boca". Se lermos essa passagem literalmente, poderíamos concluir que eles eram amantes. Mas se a lermos sob uma perspectiva gnóstica, sabemos que o beijo simboliza o sopro do espírito, o conhecimento. O mestre beija seu discípulo para transmitir o sopro, a alma espiritual.
A ideia de que Jesus e Maria Madalena tiveram filhos – o segredo do Santo Graal – seria, portanto, completamente extravagante?
Estou simplesmente dizendo que o argumento de Dan Brown em favor dessa tese não se sustenta. No entanto, não há evidências históricas que provem que essa ideia é falsa.
O romancista também se refere aos preciosos manuscritos de Qumran, que, segundo ele, contêm parte desse segredo. Por que eles só foram traduzidos meio século após sua descoberta?
Os 850 pergaminhos — incluindo 200 textos bíblicos — desenterrados a partir de 1946 perto do Mar Morto estavam em péssimo estado de conservação, e a École Biblique de Jerusalém, encarregada da tradução, demorou muito para iniciar o trabalho. Hoje, todos os documentos foram decifrados, publicados pela Oxford University Press, e a controvérsia diminuiu. Mas Dan Brown distorce a história ao apresentar esses manuscritos de Qumran como os “primeiros textos cristãos”: na realidade, esses textos são judaicos e nenhum deles menciona Jesus. Muito menos Maria Madalena.
Podemos afirmar, como faz Dan Brown, que a Igreja Católica apagou deliberadamente o papel das mulheres nos primórdios do cristianismo?
É neste ponto que o autor de O Código Da Vinci está correto. O papel das mulheres nos Evangelhos é muito mais significativo do que aquele que a Igreja primitiva estava disposta a lhes conceder após a morte de Jesus. Os Evangelhos descrevem Cristo rodeado por discípulas. E é a Maria Madalena que Jesus aparece pela primeira vez, perto do túmulo vazio. A jovem se atira a seus pés, dizendo: "Raboni!" — uma palavra hebraica que significa "Mestre Amado". Este diminutivo afetuoso revela a relação muito próxima que existia entre eles. A partir dos Atos dos Apóstolos e das Epístolas de São Paulo, as mulheres deixam de ser incluídas. Na minha opinião, trata-se de um mecanismo puramente sociológico, um reflexo machista mediterrâneo, vivenciado pelos judeus e, posteriormente, pelos muçulmanos. Em sociedades patriarcais, onde as mulheres não lideravam igrejas nem sinagogas, era lógico que também não lhes fosse dada proeminência nos textos religiosos. Mais tarde, percebendo que a piedade popular exigia figuras femininas, a Igreja autorizou a veneração da Virgem Maria e de Maria Madalena. Mas a mãe de Jesus tornou-se uma figura dessexualizada, um símbolo de pureza absoluta, enquanto Maria Madalena foi assimilada à prostituta sagrada. Dois arquétipos desumanizados.
Muito distante do sagrado feminino que Dan Brown está trazendo de volta aos holofotes…
Absolutamente! Não nos esqueçamos de que, por um longo período anterior às civilizações, as divindades eram femininas. Depois, a humanidade se estabilizou e tomou consciência de seu papel crucial na procriação. Com a consolidação do patriarcado, o divino foi masculinizado na Grécia, no Império Romano, entre os judeus e entre os cristãos. Dan Brown está sendo desonesto ao atribuir toda a responsabilidade por essa repressão do sagrado feminino ao cristianismo.
O romancista vai além, afirmando que essa religião deve seu sucesso histórico a uma manobra política vulgar orquestrada pelo imperador Constantino no século IV d.C.
Constantino de fato se converteu ao cristianismo em seu leito de morte e já o havia tornado a principal religião do Império Romano. Mas foi Teodósio, em 380, quem o estabeleceu como religião oficial. Crucialmente, o Concílio de Niceia, em 325, não foi convocado por Constantino para examinar as Escrituras e queimar os apócrifos, mas sim para lidar com a crise do arianismo. Um grande debate teológico dividia a Igreja na época: Jesus era um homem, era divino ou era Deus-homem? Nos Evangelhos, o profeta nazareno se define alternadamente como Filho de Deus e Filho do Homem. Ário, um sacerdote de Alexandria, afirmava que o Filho, a segunda pessoa da Trindade, não era igual a Deus Pai. Vários bispos se opuseram a ele, e a disputa se intensificou. Constantino, preocupado em evitar divisões para unificar seu império com base no cristianismo, convocou o Concílio de Niceia para forçar todos os prelados a chegarem a um acordo. Portanto, não houve conspiração política, mas sim debates teológicos acalorados.
Portanto, Dan Brown não está errado ao afirmar que o dogma da Trindade resultou, de fato, de uma votação.
É verdade que foram necessários quatro séculos para estabelecer o dogma da Trindade e da Encarnação de Cristo, visto que foi o Concílio de Niceia que decretou a consubstancialidade de Cristo com o Pai e condenou o arianismo como heresia. Mas Dan Brown está enganado ao afirmar que Constantino procurou favorecer o campo anti-Ário ao ordenar a destruição de Evangelhos apócrifos que corroboravam a tese do sacerdote. Foi somente no Concílio de Cartago, em 397, que a Igreja rejeitou — e não queimou — esses textos apócrifos e preservou os quatro Evangelhos que conhecemos, os quais, juntamente com as cartas de Paulo, estão entre os textos cristãos mais antigos.
Como você explica o triunfo mundial de O Código Da Vinci?
Dan Brown e sua esposa tiveram uma ideia de negócio brilhante: adicionar uma teoria da conspiração — as mentiras da Igreja — ao tema do segredo, entrelaçando-a com o sagrado feminino e, para completar, incluindo Leonardo da Vinci. Mas O Código Da Vinci também é, na minha opinião, um verdadeiro fenômeno social. Ele destaca tendências contemporâneas poderosas: o fascínio do público por Jesus, a crise das instituições — incluindo as acadêmicas, já que, para os fãs de Dan Brown, a história oficial também é suspeita — e a necessidade cada vez mais evidente de se reconectar com o feminino. Foram, de fato, os círculos feministas americanos que inicialmente fizeram do livro um sucesso. Se O Código Da Vinci ressoou tão fortemente, especialmente entre cristãos descristianizados, é porque tenta reabilitar as mulheres e a sexualidade dentro do cristianismo. Por que a Igreja negligenciou tão completamente o feminino? Por que se tornou tão obcecada pela sexualidade? Claramente, Dan Brown usa argumentos falhos, mas faz boas perguntas.
Publicado no L'Express, 18 de junho de 2006